Tem tempo que quero escrever um conto e não me aparece nenhuma idéia, eis que depois de algumas doses do velho Buk e do Veríssimo consegui este aqui, é grande mas vale a pena ler, pelo menos pra postar a critica ai no final.
Capítulo 1
O antepenúltimo dia
Já faz dois dos meus 20 anos vividos que trabalho nessa espelunca, nem é uma espelunca na verdade, é um dos maiores hotéis da cidade, mas pra mim que trabalha aqui dentro é, sei da falta de organização que é isso aqui, já cansei de pegar as camareiras com seus vestidos de viscosa levantados até a cintura, debruçadas sobre a mesa da cozinha ou nos quartos vazios dando pro Júlio, o subgerente e outras até com seus namorados. Não julgo, afinal de contas se eu pudesse, eu também não iria bancar motel nenhum pra transar sendo que aqui tenho quartos e tv a cabo de graça. O problema mesmo é que não tenho ninguém, nenhuma garota me olha com esse uniforme bege ridículo e essa boina que só me faz suar e amassar meus cabelos enrolados, não que eu seja um “Fábio Assunção” da vida sem ele, mas só o fato de ter uma camisa bege de botões com um bolso no lado esquerdo do peito com o emblema do Hotel Vasconcelos cujo o mascote é um bonequinho em forma de uma cama sorrindo, me torna bastante invisível tanto na recepção quanto nos corredores, sem contar quando vou limpar os quartos carregando um balde com algum produto fedorento e um rodo gigante.
Mas, contudo trabalhar aqui tem suas vantagens, posso ficar na internet quando estou ocioso e jogando sinuca nas manhas de domingo quando o chefe não está, gosto também de trabalhar na recepção, aparecem uns gringos estranhos que conversam engraçado, mas de uns dias pra cá tenho um motivo a mais, a melhor hora do dia para ficar na recepção é por volta das 8 da manhã, é quando ela chega, acho até que a única coisa que me faz continuar trabalhando aqui é vê-la, por falar nisso lá vem ela, seu nome é Sofia Mendes Siqueira,ou Sofia do 44 como costumo chama-la nos meus pensamentos, 19 anos, um pouco mais baixa do que eu, vi isso quando cruzei com ela no corredor, cabelos pretos, pele clara, não chega a ser branquela nem amarelada, diria que é a cor perfeita, sua cintura parece ter sido moldada como aqueles vasos de barro no filme Ghost, pela própria Demi Moore, seus seios, são pequenos mas não deixam de ser maravilhosos, a bunda é bem arredondada e saliente mas é ofuscada pelas calças sociais que ela usa, sem falar do sorriso que ela sempre mantém no rosto, mesmo até quando olha pra mim, as meninas nunca são educadas comigo assim, principalmente aqui no hotel:
- Bom dia senhorita Mendes, como vai? – Nem sempre sou espontâneo assim com as mulheres mas é norma da empresa dar “Bom dia”.
- Senhorita não moço, pode me chamar de Sofia ué. –Respondeu com sua voz um pouco grave mas sutil e abriu aquele sorriso hipnotizante enquanto me entregava a chave de seu quarto. Hoje ela estava com uma blusa branca justinha que chegava a quase mostrar sua barriga, “como deve ser delicioso o seu umbigo” pensei.
- Poderia pedir um táxi pra mim? Minha carona atrasou. – Ela perguntou enquanto eu fiquei, estatelado reparando seus traços, suas sobrancelhas finas e delicadas, seus olhos grandes e extremamente castanhos, se eu fosse dar um exemplo pra alguém do que era a cor castanho eu citaria os olhos de Sofia do 44, seu nariz fino e nem um pouco grande, sua boca então, era sutilmente desenhada em um perfeito ornamento com uma pequena pinta abaixo de sua maçã do rosto esquerdo. “Como ela é perfeita” fiquei pensando, quase que me esqueci de respondê-la:
- Claro, vou pedir pro motorista do Hotel pra te levar. GERALDO.- gritei-o - Acompanhe a Senho.. digo Sofia pra mim por favor, ela quer uma carona.
- Obrigado senhor… – ela agradeceu enquanto franziu seus olhos tentando ler o nome no meu crachá – Henrique né?.
- Pode me chamar só de Henrique, por favor.
E saiu sorrindo como sempre, sei que ela ia para um curso de Fotografia em algum lugar da cidade, sei porque certa vez ouvi uma conversa dela com o Júlio Subgerente enquanto eu limpava o chão da recepção, aquele miserável do Júlio tava dando em cima dela, ele acha que pode transar com todo mundo, mas deu pra ver que ele não fazia muito o tipo dela, só pelas respostas que ela o dava e também porque ela nem sorria tanto quando conversava com ele, lembro dela dizer que morava em alguma cidade do interior da qual não me lembro e que ficaria aqui por apenas 2 semanas até concluir o tal curso.Uma pena. Sempre ficava observando-a, sabia de tudo o que ela gostava de comer no café da manhã, sabia que ela odiava suco de maracujá, pois ela sempre bebia leite quando era servido esse suco, sabia que ela gostava de lavar suas calcinhas da Capricho e pendurar atrás da geladeira pra secarem, minha obsessão por ela chegou a tanto que uma vez quando fui trocar as toalhas de seu quarto roubei seu perfume por um dia apenas pra borrifar um pouco no meu travesseiro, sorte que ela nem percebeu. Nunca tive chance, nem sequer coragem de conversar com ela algo interessante, sabia que nunca iria se interessar por mim, um cara que vive trancafiado em casa lendo gibis adultos e jogando futebol no videogame e que nos finais de semana sai para casa dos amigos que também não pegam ninguém para beber e jogar baralho. Depois de amanha ela deve ir embora e provavelmente nunca mais a verei, bom, nem é a primeira vez que isso acontece.
Capítulo 2
O penúltimo dia – Ela tem cultura também
Ainda abotoando a gola de meu uniforme, pude perceber o Júlio me olhando de longe por detrás do sofá na recepção e apontando pro seu relógio, discretamente para me lembrar que estava atrasado, assenti com a cabeça mas nem me preocupei, ainda estou extasiado por ter acabado de comprar o último exemplar do Hellblazer que faltava para minha coleção, arrumei depressa minha gravata e conferi minha boina vendo meu reflexo na vitrine, sabia que faltava poucos minutos para ela passar e não queria parecer mais feio do que o de costume, nem deu tempo de guardar minha revista.
- Oi Henrique, bom dia. – Sim é ela mesma.
- Bom dia Sofia, tudo bem com você?- respondi meio sem graça
- Nossa de quem é essa revista? Adoro o Constantine. – Disse ela metendo aquela mão linda na revista e folheando-a rapidamente.
O quê? Não pode ser verdade , a menina mais linda que já vi em minha vida gosta de Hellblazer? Só pode ser brincadeira.
- Bom, que coincidência, ela é minha. – Respondi ainda em estado de choque.- era a que faltava pra completar a ultima edição que lançaram.
- Ah não brinca, bem que você poderia me emprestar pra eu ter alguma coisa que fazer a noite né, já não agüento mais ver tv naquele quarto. – “Ô meu Deus, porque que você não me deu um pouquinho mais de coragem, pra eu chama-la pra sair antes?”
- Bom, é… cla…claro – Gaguejo sempre nas piores horas – vou trazer as primeiras ediçoes que tenho lá em casa na hora do almoço. Pode ser?
- Sério?
- Aham.
- Anem, você é um amor, fico te devendo essa. – verdade que ela me parecia ser um pouco fresca mas nada que me desviasse de sua beleza.
Nem trabalhei direito depois disso, ficava me imaginando entregando os gibis nas mãos dela no seu quarto do hotel, ela me chamando pra entrar e logo depois a gente se beijava e tudo mais. Sabia que não aconteceria nada disso mas era bom pensar.
Capítulo 3
O último dia – A revelação.
Dessa vez eu até dormi mais cedo pra ver se o dia chegava mais rápido, desmarquei até as partidas de poker no bar com os caras, cheguei uns cinco minutos mais cedo, limpei o balcão e fiquei esperando até que o Júlio apareceu:
- Henrique, preciso que você faça uma limpeza do 44 e troque todas as toalhas e sabonetes de lá. – Estranhei a ordem do subgerente afinal de contas ele só me pedia aquilo quando queria fechar a conta de algum quarto, mas Sofia tinha reservado até amanhã à tarde.
- Mas ela já pediu para fechar a conta? – Indaguei espantado
- Sim, segundo o porteiro, ela teve uma confusão aqui na porta do hotel e veio aqui as pressas pedindo pra fechar a conta porque ela precisava partir – Júlio levantou as sobrancelhas e arregalhou os olhos fazendo sarcasmo – E parece que rolou até pancadaria aqui fora, tiveram que chamar o segurança, dizem que foi feio.
- Entendi, vou pra lá então.- Tentei não parecer afoito, contudo não pude deixar de ficar preocupado, peguei as chaves do quarto e subi com as toalhas o mais rápido que pude. Chegando lá encontrei o quarto todo bagunçado, alguns cremes dela ainda continuavam na estante do banheiro e dentro do guarda roupa entreaberto pude ver um pequeno caderno de arame com a capa colorida, e alguns papeis dentro como se estivessem marcando páginas, folheei- o pelas primeiras páginas e vi alguns desenhos da Puca mal feitos e alguns manuscritos, fui prosseguindo página por página até me dar conta de que aquilo era o diário de Sofia. Eram fatos do seu cotidiano, tudo aquilo me deixou mais ansioso ainda, “será que ela escreveu sobre mim?” será que tem alguma coisa aqui falando do garoto que usa uma boina ridícula?” . Nada disso, mas acabei encontrando um que me confundiu mais ainda.
“Ai didi, enfim mais um dia sofrido, vim para essa cidade aqui em busca de sossego e acima de tudo respeito, mas acho que essas coisas não são tão simples de se conseguir, hoje eu fui pra uma balada lá no tal Drinkiss e encontrei um garoto bacana, logo eu e ele começamos a nos beijar, tava tudo indo muito bem, ai ele era tão lindo, até que então ele começou a avançar o sinal, fiquei muito excitada e logo tive que parar com aquilo antes que arrumasse confusão, ele ficou sem entender e foi embora me xingando. Fico triste nessas horas pois não posso nem ser eu mesma, que tenho que fugir, já me cansei de ter que descascar a laranja sem poder beber o caldo, ô meu Deus porque você faz isso comigo?”
Apesar de ter ficado com uma ponta de ciumes dela ainda nao conseguia parar de pensar porque ela teria ido embora tão de repente, e o que diabos ela queria dizer com essa frase? “já me cansei de ter que descascar a laranja sem poder beber o caldo?” . Arrumei o quarto e desci pra ver se ela pelo menos havia deixado minhas revistas na recepção. Deixei em cima do balcão as toalhas e os cremes que ela havia deixado, guardei seu diario no meu armário quando o Júlio me cutucou no ombro e disse baixinho no meu ouvido:
- Sabe a tal garota da confusão de ontem? – O Júlio era quase um Nelson Rubens naquele hotel, sabia da vida de todo mundo.
- O que tem ela? – respondi quase sussurrando
- Ela não é ela
- Como assim?
- Oras como assim, ela descasca o palhaço enquanto senta no kibe ta me entendendo?
-O quê??
- Mas você é BURRO hein Henrique! Ela é Trava, ontem ela levou uma surra de um cara aqui que parece que tinha acabado de descobrir a verdade, – Júlio sorriu meio que aliviado – E eu quase caí na dela, quase saí com um cuecão, Deus o livre.
Parece que algum lugar distante da minha cabeça queria me dizer aquilo fazia algum tempo, talvez um sexto sentido querendo me protejer, mesmo assim eu ainda não tinha acreditado, apesar de tudo, as coisas começaram a fazer sentido, o jeito que ela (digo ele, ou seja lá que merda seja) me tratava não era nem um pouco normal mesmo e de fato é que uma coisa sempre me chamou atenção nela, seu gogó, seu pomo de adão era mesmo acentuado e como eu fui idiota de não perceber tal coisa, entendi também o porque do tom grave de sua voz, e o sentido daquela frase em seu diário, fora ela gostar de Hellblazer, que mulher em sã consciencia ia ler as Histórias de um Hippie que caça e exorcisa demônios? E como de praxe me dei mal, não peguei ninguém e perdi minhas revistas, melhor reparar mais nos gogós das garotas que aparecerem aqui e manter meus gibis longe delas da próxima vez.